Falta.

Eu tenho uma enorme dificuldade em esquecer. Mas ao mesmo tempo, uma enorme capacidade de fingir. As vezes, enterro tão fundo, que quase acredito realmente não sentir mais. Mas sinto. Sinto muito.

Preciso aprender o tal desapego. Fui adepta dele tanto tempo, mas de uns tempos pra cá, esqueci o que é isso. Tenho me apegado até bem mais do que seria saudável pra mim. E isso me consome tanto. Termino o dia exaurida.

Me sinto à beira. Igual quando eu era adolescente, e escrevia sobre desespero e angústia, imaginando meninas prestes a se lançarem de algum penhasco, por cima de mares agitados e revoltos, dentre ventos e nuvens cinzentas, chuva e choro… Como se minha alma estivesse querendo voltar pros dias sombrios. Que não sei ao certo se são de onde eu pertenço.

Me lembro de quando ouvia certas musicas, e realmente sentia, que meu coração tinha um buraco vazio enorme. E ao mesmo tempo, uma certeza, que nada nesse mundo, nunca, ia preenche-lo. Acho que eu era mais sábia quando menos vivida. A caminhada da vida me emburreceu, me enganou. Me fez talvez quase crer que buracos não existem. Ou que se existem, podem ser tampados. Não os meus…

E de repente assim, escrevendo palavras soltas numa madrugada qualquer, resgatei um algo que quase tinha sido enterrado. Não consigo mensurar a alegria que redescobrir minha genuína tristeza me causa, se é que alguém entende o que seja isso. Eu entendo, claramente! E agora acho que ficou mais fácil, lidar com esse luto que me faz parte da alma, desde que me entendo por gente. Sou ‘’feliz’’ na falta…

O Amor Gangrena

Mamãe cresceu numa casa com mais 11 irmãos, 2 empregadas e primos esporadicamente passando temporadas. O sonho de consumo dela era poder comer uma lata de leite moça sozinha. E os vestidos pra sair, eram ela e as irmãs que tinham que costurar. Antigamente crescia-se com casas cheias e sabia-se mais sobre tolerância, convivência e partilha.

Lá em casa eu tinha uma prateleira na geladeira só pra mim. Instaurei essa regra depois de inúmeras vezes chegar em casa doida pra comer algo que era pra estar lá mas não estava porque meu pai ou irmão tinham devorado. Foi mais fácil dar esse grito do que enxergar neles a capacidade de respeitar o meu rango. Sou super individualista desde nova. Rola uma certa dificuldade de dividir as coisas, especialmente comida. ‘’Joey doesn’t share food!!’’.

O mundo há algumas décadas atrás era mais restrito. Não existia tanta variedade de coisas pra gente escolher, comprar e/ou personalizar. Casamentos duravam a vida toda. Mulher só transava com o marido. Safadeza, só namorando. Hoje em dia é essa abundância de possibilidades desconcertante. Podemos escolher ou mandar fazer tudo exatamente como quisermos. Cor, tamanho, forma, duração, localização… Tudo pode ser do ‘’seu jeito’’. E criamos a impressão na nossa cabeça que isso também vale pras pessoas e relacionamentos. Por isso quase nada engrena. E o amor, só gangrena.

Diante das mínimas dificuldades (mas que pra nós parecem enormes e insuperáveis) desistimos de querer as pessoas. Pelos motivos mais bobos ou pela falta de capacidade ou vontade de enxergar e entender que ali do outro lado existe um ser humano lotado de emoções e pequenos dramas pessoais assim como nós. Mas não, o outro tem que ser do jeito que eu quero e preciso que ele seja. Se não ‘’não dá certo’’. É um certo que só funciona de um gume da faca…

E a vida vira isso: eu tenho tudo exatamente do jeito que encomendei. Minhas roupas, meus sapatos, minha casa, meu perfil na rede social, meu carro, meu banco, meu plano de telefonia, meu pacote de TV a cabo e mais um monte de pequenices. Até a minha geladeira, todas as prateleiras dela e as várias latas de leite moça empilhadas na despensa. Mas quando acontece alguma coisa extraordinária na minha vida, eu divido isso com quem?