Museu do Índio – por Cleonice Pitangui Mendonça

A conquista de um povo está na força de um sonho e na coragem de um guerreiro.

Índio Xohã (Inscrição na parede do Museu do Índio – Maracanã)


Poder, arbitrariedade, resistência

No ano em que comemoramos 90 anos do nascimento de Darcy Ribeiro uma de suas obras, o Museu do Índio, por ele criado no bairro Maracanã em 1953, recebe um ataque do poder do Estado do Rio de Janeiro. Em nota oficial, expedida em 18.10.2012,  o Governador Sérgio Cabral anuncia a demolição do Museu para oferecer uma mobilidade maior às pessoas no entorno do Maracanã durante a Copa do Mundo em 2014[1]. O Museu, única instituição oficial no país dedicado exclusivamente às culturas indígenas, foi transferido para o bairro do Botafogo em 1978[2]. À época da vigência do Museu próximo ao Maracanã, o Marechal Rondon e Darcy Ribeiro costumavam ali receber os índios.

A falta de visão do Governador com essa atitude, eliminação de um bem cultural de significado ímpar para a nossa história e cultura, causa-nos estranheza, pois nos faz pensar que o DD Governador parece não conhecer que esse BEM CULTURAL faz referência aos primeiros povos que habitavam a terra a se transmutar no país Brasil. Falta maior penso eu, é não capitalizar o Museu para a Copa de 2014 tombando-o, recuperando-o, preservando-o e o transformando num exemplo positivo de como o Estado trata os nossos primeiros habitantes, num país formado de diferentes humanidades, como diria Darcy Ribeiro. Existe vitrine melhor para a visita de turistas do mundo inteiro que estarão aqui para a Copa do que esta?  Situada ao lado de um dos nossos maiores estádios, onde ocorrerá parte dos jogos?

A nossa Carta Magna dispondo sobre a Cultura, diz em seu Art. 216 “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, (…)”. Neste sentido, cabe ao IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, já acionado, tomar as medidas necessárias para o reconhecimento do imóvel como patrimônio cultural.

Uma movimentação em defesa desse nosso patrimônio foi iniciada pela Fundação Darcy Ribeiro com o lançamento de um manifesto no dia 26 de outubro de 2012, dia do aniversário de noventa anos do Darcy Ribeiro e pelos indígenas, que ora ocupam o prédio, realizando, nos dias 27 e 28/10/12,  rituais de canto e dança como forma de resistência não violenta. Os indígenas que tradicionalmente nos oferecem lições de como lidar na preservação do meio ambiente, agora nos ensinam sobre a defesa do patrimônio, deles e do nosso. Esperamos que as autoridades competentes detentoras do poder político de decisão ajam em consonância com tais ações em favor da não destruição do imóvel, acatando laudo do IPHAN a favor da preservação do prédio[3].

Ao receber o título de Doutor Honoris Causa pela Sorbonne em 1979, Darcy Ribeiro aceitou a honraria pelos méritos de seus fracassos que, no entanto, atestavam a sua dignidade. Um deles era a luta em defesa dos índios do Brasil que continuavam condenados à aniquilação haja vista, hoje, a situação dos Guarani-Kaiowá, com grande repercussão e causando espanto no mundo. A preservação do Museu do Índio deve mostrar uma visão de Estado que faça jus aos nossos primeiros habitantes, apontando na direção de uma política de direitos tão cara ao discurso oficial.

Darcy Ribeiro dizia que somos uma nova Roma, tardia e tropical, construindo-nos como uma nova civilização, orgulhosa de si mesma. “Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as (…) culturas[4].”

O ato do Governador Sérgio Cabral aponta para o oposto.


[1] Costa Felippe, do Globoesporte.com

[2] http://www.museudoindio.org.br, acessado em 30.10.12 às 8h09.

[3] Costa, Felippe, idem

[4] Darcy Ribeiro, O povo brasileiro – A formação e o sentido do Brasil, Companhia das Letras, SP, 1995, pp. 448/449.